Alargamento do passe ferroviário em Lisboa e no Porto é "populista": há "problemas de oferta"

Alargamento do passe ferroviário em Lisboa e no Porto é "populista": há "problemas de oferta"

Fernando Nunes da Silva, especialista em transportes e antigo vereador, lamenta que o alargamento do passe ferroviário verde nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto não seja acompanhado de um aumento de oferta. Receia ainda que haja impacto no Navegante e no Andante.

Gonçalo Costa Martins - RTP Antena 1 / Adicionar como fonte informativa
Foto: Nuno Patrício - RTP

Se há mais passageiros para uma determinada oferta que não é aumentada, há um maior risco dos transportes ficarem sobrelotados. Este é um receio demonstrado por Fernando Nunes da Silva, professor na área de urbanismo e transportes no Instituto Superior Técnico e que foi vereador de mobilidade na Câmara de Lisboa, entre 2009 e 2013, em mandatos do PS.

Partindo desse receio, dá o exemplo do que aconteceu com a Fertagus, a partir de 2019, altura em que houve uma redução do preços dos passes. Afirmando que o serviço "era considerado bastante bom", com o passe e sem novos comboios, gerou-se uma situação de "comboios completamente cheios nas primeiras estações", por causa do crescimento da procura. "É óbvio que isso vai ter o mesmo tipo de consequências", considera.
Gonçalo Costa Martins - RTP Antena 1

A partir de setembro, o passe ferroviário verde da CP será alargado aos comboios das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, anunciou na última sexta-feira o primeiro-ministro, Luís Montenegro, na Festa do Pontal. De fora continuam apenas os Alfa Pendular. Na opinião de Fernando Nunes da Silva, este alargamento é uma "medida um pouco populista".

"Quem não consegue resolver os problemas de fundo, vai replicando medidas anteriores, baixando o preço, para ver se fica melhor na fotografia", atira, "mas os problemas de fundo continuam por resolver". Além de destacar os "problemas relacionados com a oferta", Nunes da Silva aponta um problema de planeamento.

O especialista em mobilidade critica o facto das entidades que gerem os transportes numa escala metropolitana apenas serem responsáveis por autocarros - no caso da TML (Transportes Metropolitanos de Lisboa) é a Carris Metropolitana, enquanto no da TMP (Transportes Metropolitanos do Porto) é a Unir. O transporte rodoviário "normalmente é um transporte complementar dos modos pesados, como barcos, comboios ou metropolitano", sublinha, serviços geridos "pelo Governo e por vários ministérios".

"Isto é bastante grave", defende, porque "depois sucedem-se este tipo de situações: cada um quer mostrar melhor serviço, aparecer melhor na fotografia, ser tido como o mais inovador , sem se preocupar muito com as consequências que isso tem nos outros operadores e no conjunto do sistema".
Especialista receia uso do carro até às estações de comboio
Apesar destas críticas, Fernando Nunes da Silva destaca que a medida anunciada por Luís Montenegro beneficiará "quem utiliza só os comboios". Para o também presidente da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento dos Sistemas de Transporte, o alargamento levará à redução de subscrições dos passes mensais Navegante e Andante. Os dois passes para as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, respetivamente, permitem o acesso a todos os transportes públicos da região por 40 euros.

Se os passageiros que usam apenas o comboio habitualmente passarem a ter o passe ferroviário verde, por 20 euros, mais barato que o Navegante e o Andante, menos pessoas usarão estes passes e perde-se o incentivo de usar outros transportes? "Pode ser vantajoso para algumas pessoas em deslocações relativamente curtas utilizarem o carro até à estação e depois irem de comboio", frisa, assinalando que a taxa de motorização (número de veículos motorizados por cada 1000 habitantes numa determinada região) em Lisboa e na área metropolitana é "fortíssima, uma das maiores da Europa".

A RTP Antena 1 tentou este sábado, sem sucesso, obter uma reação da TML e da TMP sobre os impactos que esta mudança no passe ferroviário verde pode ter nos dois passes metropolitanos.

No dia 20 de abril, o Ministério das Infraestruturas e da Habitação assinalou que já tinham sido vendidos um milhão de passes ferroviários - isto é, os cartões que permitem carregar o passe desta modalidade. Nos dados mais recentes da altura, em março de 2026, perto de 70 mil desses passes estavam ativos. O passe ferroviário verde está disponível desde outubro de 2024, e o próximo passo é a preparação de um passe intermodal nacional, serviço que o ministro Miguel Pinto Luz disse esperar ter pronto até ao final do ano. 

Sem um aumento de oferta de comboios urbanos a curto prazo, está prevista a chegada a partir de 2029 de um conjunto de 153 comboios da fabricante Alstom (regionais e urbanos). Há uma outra encomenda de 22 comboios regionais, da Stadler, que terão as primeiras três automotoras a circular no Alentejo até março. Está também em curso um concurso para obter 12 comboios de alta velocidade para a futura LAV - linha de alta velocidade - em Portugal.
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